domingo, 14 de outubro de 2012

Redescobrindo-se: Ensino Público

Redescobrindo-se: Ensino Público

Ensino Público

Ensino público estadual: descaso total Artigo publicado no Jornal A Tribuna, na coluna Tribuna Livre, em 22/02/2011 “Se a Educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. O pensamento do educador Paulo Freire aponta-nos a educação como ferramenta de democratização e de formação do cidadão. A afirmativa parece verdadeira mas, ao menos no ensino público estadual, a educação está bem distante de ser um instrumento transformador. A rede pública estadual de São Paulo atende hoje cerca de 4,5 milhões de alunos, distribuidos em mais de 5000 escolas. Na maioria delas, um cenário em comum: o descaso do poder público. Da infra-estrutura à remuneração dos professores, tudo parece deixado ao léu. Basta entrar numa das centenas de escolas estaduais da Baixada Santista para constatar o abandono. Recentemente, o Governo do Estado comemorou a compra de milhões de kits escolares.Esquecem-se, porém, que os edifícios onde as escolas funcionam estão em estado lastimável. Rachaduras e vazamentos são realidades vistas diariamente por quem frequenta, certamente por falta de opção, as escolas públicas estaduais. Foi divulgado investimento de R$ 127,3 milhões no programa Trato na Escola, que prevê pequenas reformas, obras de reparo e pintura. Segundo prometido, em 2011, todas as cinco mil unidades da rede serão atendidas, permitindo que os alunos iniciem este ano letivo em ambientes revitalizados. Não é o que parece ter acontecido, pois ao voltarem recentemente às aulas, alunos e professores de muitas escolas encontraram o mesmo cenário deixado no final de 2010. Outra balela é a presença dois professores em sala de aula, projeto do qual se vangloriam os tucanos. Propaganda enganosa, sentenciam os professores da rede. O que existe em algumas salas é a presença de um professor e de um estagiário. E pior, muitas vezes, ao invés de dois, os alunos não tem nenhum professor. Não são raros os relatos de alunos que ficam sem aulas em determinadas disciplinas por falta de docente, o que chega a acontecer durante um semestre inteiro. O resultado não poderia ser outro: desmotivados, os alunos não conseguem ver nos estudos a base para um futuro melhor, gerando uma hiato em suas formações. Com isso, muitos concluem o Ensino Fundamental como analfabetos funcionais, ou seja, sabem ler e escrever, mas não tem as habilidades necessárias para o desenvolvimento pessoal e profissional. No caso dos professores, muitos sofrem violência, sentem-se fragilizados e trabalham com medo, tornando frequentes os casos de afastamento por doenças como síndrome do pânico e depressão. Somente nos cinco primeiros meses de 2010, 194 docentes (mais de um por dia) da rede paulista foram readaptados, situação em que servidores com graves problemas de saúde passam a fazer atividades administrativas, deixando de lecionar. Obviamente, existem exceções. Poucas, infelizmente. A Escola Estadual Barnabé, sob exemplar direção da sra. Irani José Abud Romano, é uma dessas poucas e gratas excessões: um modelo a ser seguido, prova de que é possível termos uma educação pública estadual de qualidade. Hoje, na rede estadual de ensino de São Paulo, a escola é uma entidade solitária, que luta para continuar exercendo a difícil função de formar o cidadão do amanhã. Diante de tanto descaso, o que será do futuro desta sociedade? *Marcus de Rosis é vereador pelo PMDB e líder do governo na Câmara de Santos