sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Desesperp
QUANDO A MORTE NÓS TORNA VIVOS
RELATOS DE um suicida
Vanderleia da silva
Ano – 2012
HOJE EU MORRI PARA O SOFRIMENTO EM QUE ME ENCONTRAVA
A fome, a sede, o frio enregelador, a fadiga, a insônia; exigências físicas martirizantes, fáceis de o leitor escrever. A natureza como que aguçada em todos os seus desejos e apetites, qual se ainda trouxéssemos o envoltório carnal; a promiscuidade, muito vexatória de espíritos que foram homens e dos que animaram corpos femininos. Tempestades inundações mesmo, a lama, o fétido, as sombras perenes, a desesperança, o supremo desconforto físico e moral – eis o panorama por assim dizer “material” que emoldurava os nossos ainda mais pungentes padecimentos morais.
Nem mesmo sonhar com o belo, dar-se a devaneios balsamizastes ou recordações beneficentes era concedido àquele que porventura possuísse capacidade para o fazer, naquele ambiente superlotado de males o pensamento jazia encarcerado nas fráguas que o contornavam só podendo emitir vibrações que se afinassem ao tono da própria perfídia local... E, envolvidos em tão enlouquecedores fogos não havia ninguém que pudesse atingir um instante de serenidade e reflexão para se lembrar de Deus e bradar por sua paternal misericórdia! Não se podia orar porque a oração é um bem é um bálsamo, é uma trégua, é uma esperança! E as desgraçados que para lá se atiravam nas torrentes do suicídio impossível seria atingir tão altas mercês!
Não sabíamos quando era dia ou quando voltava a noite, porque sombras perenes rodeavam as horas que vivíamos. Perdêramos a noção do tempo. Apenas esmagadora sensação de distância e longevidade do que representasse o passado ficara para açoitar nossas interrogações, afigurando-se que estávamos há séculos jungidos a tão ríspido calvário1 dali não esperávamos sair, enquanto fosse tal desejo uma das causticantes obsessões que nos alucinavam... Pois o desânimo gerador da desesperança que nos armara o gesto de suicidas afirmava-nos que tal estado de coisas seria eterno!
A contagem do tempo, para aqueles que mergulhavam nesse abismo, estacionara no momento exato em que fizera para sempre tombar a própria armadura da carne! Dai para cá só existiram – assombro, confusão enganosos induções suposições insidiosas! Igualmente ignorávamos em que local nos encontrávamos, que significação teria nossa espantosa situação. Tentávamos, aflitos, furtamo-nos a ela, sem percebermos que era cabedal de nossa própria mente conflagrada de nossas vibrações entrechocadas por mil malefícios indescritíveis! Procurávamos então fugir do local maldito para voltarmos aos nossos lares; e o fazíamos desabaladamente em insanas correrias de loucos furiosos! Aasveros malditos, sem consolo em parte alguma... Ao passo que correntes irresistíveis como ímãs poderosos, atraíam-nos de volta ao tugúrio sombrio, arrastando-nos de volta a um atro turbilhão de nuvens sufocadoras e estonteantes!
De outras vezes, tateando nas sombras, lá íamos por entre gargantas, vielas e becos ,sem lograrmos indicio de saída... Cavernas sempre cavernas – todas numeradas – ou longos espaços pantanosos quais lagos lodosos circulados de muralhas abruptas, que nos afiguravam levantadas em pedra e ferro, como se fôramos suputados vivos na profunda tenebrosidade de algum vulcão! Era um labirinto onde nos perdíamos sem podermos jamais alcançar o fim! Por vezes acontecia não sabermos retornar ao ponto de partida, isto é. Ás cavernas que nos serviam de domicílio, o que forçava a permanência ao relento até nos abrigarmos algum covil desabitado se nas para outra vez nos abrigarmos. Nossa mais vulgar impressão era de que nos encontrávamos encarcerados no subsolo em presídio cavado no seio da terra, quem sabia se nas entranhas de uma cordilheira, da qual fizesse parte também algum vulcão extinto, como pareciam atestar aqueles imensuráveis poços de lama com paredes escalavradas lembrando então a bramir em coro, furiosamente, quais maltas de chacais danados, para que nos retirassem dali, restituindo-nos á liberdade! As mais violentas manifestações de terror seguiam-se então: e tudo quanto o leitor imaginar possa, dentro da confusão de cenas patéticas inventadas pela fobia do horror, ficará muito além da expressão real que nós vivida nessas horas criadas pelos próprios pensamentos distanciados da luz e do amor de Deus.
Como se fantásticos espelhos perseguissem obsessoramente nossas faculdades lá se reproduzia a visão macabra – o corpo a se decompor sob o ataque dos vibrições esfaimados; a faina detestável da podridão a seguir o curso natural da destruição orgânica levando em roldão nossas carnes nossas vísceras, nosso sangue pervertido pelo fétido, nossos corpo enfim, que se sumia para sempre no banquete asqueroso de milhões de vermes verozes, nosso corpo que era carcomido lentamente, sob nossas vistas estopetadas! Que morria em verdade, em se utilizara apenas como um de um vestuário transitório, continuava vivo, sensível, pensante, desapontado e pávido, desafiando a possibilidade de também morrer! E - ó tétrica magia que ultrapassava todo o poder que tivéssemos de refletir e compreender! – o castigo irremovível punido o renegado que ousou insultar a Natureza destruindo prematuramente o que só ela era competente para decidir e realizar: Vivos nós, em espíritos, diante do corpo putrefato, sentíamos a corrupção atingir-nos!... Doíam em nossa configuração astral as picadas monstruosas dos vermes! Enfurecia-nos até á demência a martirizante repercussão que levava nosso períspirito, ainda animalizado e provido de abundantes forças vitais a refletir o que se passava com seu antigo envoltório limoso – tal o eco de um rumo a reproduzir-se de quebrada em quebrada da montanha, ao longo de vale.
Nossa covardia, então, a mesma que nos brutalizava induzindo-nos ao suicídio, forçávamos a retroceder.
Retroceder.
Mas o suicídio ê uma teia envolvente em que a vitima – o suicida se debate dos para cada vez, mas confundir-se tolher-se, embaraçar-se se sobrepunha a confusão. Agora a persistência da autossugestão maléfica recordava as lendas supersticiosas, ouvidas na infância e calcadas por longo tempo nas camadas da subconsciência; corporificava-se em visões extravagantes a que emprestava realidade integral. Julgava-nos nada menos que a frente do tribunal dos infernos! Sim! Vivemos na plenitude de regiões das sombras!... E espíritos de ínfima classe do Invisível – obsessores que pululam por todas as camadas inferiores, tanto da terra como do além; os mesmo que haviam alimentada do em nossas mentes as sugestões para o sacrifício divertindo-se com nossas angustias prevaleciam-se da situação anormal para o qual resvaláramos, a fim de convencer-nos de que eram juízes que nos deveriam julgar e castigar apresentando-se as nossas faculdades conturbadas pelo sofrimento como seres fantásticos, fantasmas impressionantes e trágicos, Inventavam cenas satânicas, com que nos suplicavam, submetiam-nos a vexames indescritíveis! Obrigavam-nos a torpezes e deboches, violentando-nos a compactuar de suas infames obscenidades! Donzelas olvidando, que se haviam suicidado, desculpando-se com motivos de amor, esquecidas de que o vero amor é paciente, virtuoso e obediente a Deus; no egoísmo passional de que deram provas, o amor sacrossanto de uma mãe que ficará inconsolável; desrespeitando as cãs veneráveis de um pai – os quais jamais esqueceriam o golpe em seus corações vibrados pela filha ingrata que preferiu a morte a continuar no tabernáculo do lar paterno – eram agora insultadas no seu coração e no seu pudor por essas entidades animalizadas e vis, que as faziam crer serem obrigadas a se escravizarem por serem eles os donos do império de trevas que escolheram em detrimento do lar que abandonaram! Em verdade pores, tais entidades não passavam de Espíritos que também foram homens mas que viveram no crime: - sensuais, alcoólatras, devassos, intrigantes, hipócritas, perjuros ,traidores, sedutores, assassinos perversos, caluniadores, sátiros – enfim, essa falange maléfica que infelicita a sociedade terrena, que muitas vezes tem funerais pomposos e exéquias solenes mas que na existência espiritual se resume na corja repugnante que mencionamos... até que reencarnações expiatórias miseráveis e rastejantes, venham impulsiona-la a novas tentativas de progresso.
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